. . . SEM CHÃO (André L. Soares) . Aquela coisa velha é tábua, parede feia da casa suja e repleta de água,... palafita fincada no chão. . Ali vive gente sem nada, bebendo e comendo onde caga, sonhando com uma cova rasa... – Inferno é essa vida de cão! . . .
. . . LITÍGIO (André L. Soares) . No real confronto dos olhares instaurando-se o processo... petição inicial apresentada, baseada no charme das palavras e na elegância dos gestos. . Mas no decorrer da lide sentimentos convertidos em desejos... de conquista. No atuar de cada parte, confrontadas a verdade e a mentira, mulher se mostrando inteira, homem carregado de sofismas. . E na união procrastinada se um perde o outro lucra... eis que na falha egoísta da outorga cada um se nega réu confesso, ambos querendo ter razão, rejeitando dolo ou culpa. . Mas se ao amor alguém se entrega, quem o bem viver posterga obviamente é o ladrão. Daí que, sangrando em carne viva, o que pra um é coração para o outro é ‘res furtiva’. . . .
. . . O CÂNCER DE GAIA (André L. Soares – 09.10.2008 – Guarapari/ES) . Existe um ser cuja coerência vive em xeque: pois submete a própria alma aos desmandos da matéria; capaz de trair tudo em que acredita,... deixa, até, que seus irmãos morram de fome. . Existe um ser cuja soberba o consome, que se afirma semelhante a um deus maior; porém, espalha dor e morte ao seu redor [qualquer coisa por um punhado de moedas]. . Existe um ser que não conhece limites: domina as feras, as pragas, as intempéries; só não controla a loucura em si mesmo e o vil talento para propagar miséria. . . .
. . Este poema integra a proposta do “Blog Action Day 2008”, cujo objetivo é discutir, por meio de ‘blogagem coletiva’ a realizar-se em 15.10.2008, a ‘pobreza’ e a ‘indigência’ no mundo, para que se possa refletir tais questões. Apresento, ainda, outra abordagem do mesmo tema e para o mesmo propósito no blog ‘Doce de Fel’, na forma de crônica. . Ao todo, são mais de 11 mil blogs envolvidos, cujos textos já foram lidos por mais de 12 milhões de internautas. Tive a chance de apreciar algumas dessas postagens e o nível é excelente, revelando elevado grau de consciência social. .
. . . SOLIDÁRIOS (André L. Soares) . Ilhas de náufragos que se ajudam trocando apoio, mesmo que mínimo, ainda que o esforço pareça infindo nunca lhes falta a esperança;... ilhas de náufragos, que ao mar se lançam... ávidos por salvar mais vidas. . Podem essas rochas ser resistentes,... ordem de homens que não se rendem, enfrentando a fúria das tempestades, todas as dores que nem são suas, até que se alcancem os continentes. . . .
Primeiro foi acordar... gritar frente ao espelho o acúmulo de silêncios;
deixar se refletirem no cristal todos meus medos nascidos dos fracassos... – esforços inúteis –.
Então,...
só após vazar a dor
que a vida ensina, consciente da importância
dos meus sonhos, de retirar resquícios
– espinhos que rechaçam
a auto-estima –,...
que vi ser possível
me recompor, captar a natureza lírica
das coisas,... a grandeza de toda existência
e assim fazer poesia em essência.
. . .
. . . LIVRE (André L. Soares) . Como o líder,... que comanda sem ser amo. Como o perfume,... que invade sem ser bárbaro. Como o pássaro,... que vai embora no outono. Como o posseiro,... que faz bom uso sem ser dono. . . .
. . . AO VENTO (André L. Soares) . Ah... esse coçar a fronte que faço se estou tenso, esse mirar em frente como quem olha pro nada, perdido tal buscasse a imagem do impossível ou a inacessível resposta à pergunta que nem fiz. . Ah... que sensação é essa, como se o mundo fosse leve e eu voasse em um monociclo pelas ruas, ladeira acima, atrás dos sonhos distantes, lançados por sobre as ondas, de encontro aos furacões, na contramão das marés. . Ah... tem ainda a sonolência, uma vontade de estancar e viver pleno na saudade, pra te sentir como música, pra te ver em meio aos lírios, pra te amar de forma mágica, balançando num trapézio, sob o ‘Cirque du Soleil’. . . .
. . . POR DARFUR (André L. Soares) . Diz que tua maldade é só loucura,... fruto de uma dor insuportável que nem mesmo o tempo curou. . Deixa que eu sinta alguma culpa. Divida comigo esses crimes,... tu que irás beber todo esse sangue, derramado em nome da ambição. . Mente! Tenta iludir o orto das lágrimas! Pois não quero crer que seja, o homem, o mais carniceiro dos Leviatãs. . . .
ENTRE FLORES E PEDRAS (Rita Costa e Sylvia Mariah)
Hoje acordei feito menina, querendo brincar em réstias de sol, colher as flores mais lindas, provar um doce, correr livre nas campinas...
(pulei da cama, sem arrumar os lençóis).
O dia me recebeu como há tempos não fazia, outra alegria tomou conta de mim alguma saudade à-toa – há muito perdida – instantes que pensei nem fosse mais lembrar, vieram de novo me fazer sorrir...
(soltei os cabelos, saí à rua)
Sei que essa energia de agora vinda do amparo dos sonhos é a mesma dos tempos de criança, fruto da espontaneidade total. Sinto-me capaz de qualquer ousadia... hoje eu até poderia correr novamente entre os gerânios
(vai chover! larguei a roupa no varal).
Hoje, não houvesse a pressa, nenhum semáforo poderia me deter, fugiria em cada recordação... – na praça, ainda existe o balanço onde eu julgava que podia voar – queria vestir toda essa fantasia Mas a semana está ainda no inicio. Ah! E esse tanto de coisas a fazer...
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